100% de trinta


No horário do almoço, no trabalho, vi que as pessoas pediam a denúncia de um perfil do twitter. Curioso, admito, fui fuxicar o perfil e ver o que havia de errado. Maldita hora. Fui preenchido aos poucos por um sentimento de ódio. Naquele perfil de um jovem carioca continha um vídeo, a qualidade era deplorável e, ainda assim, queria ser poupado de tantos detalhes. Vi cenas que pareciam ser surreais. Cenas de uma jovem nua deitada na cama. Uma jovem que parecia desacordada, uma mulher que naquele momento além de ter sofrido e entrado para as estatísticas, foi exposta brutalmente em um local onde as coisas disseminam com enorme facilidade. 

No fundo do vídeo, uma voz masculina gritava que aquela jovem tinha sido tratada como um objeto sexual de trinta homens. Uma vítima de estupro, trinta homens que concordaram com tal ato.


-“Essa aqui, mais de 30 engravidou. Entendeu ou não entendeu? (...) 
Olha como que tá. Sangrando. Olha onde o trem passou. Onde o trem bala passou de marreta”. 

Trinta. 30. Maior que um time de futebol, vôlei ou handebol. Dividido por dois, resulta em quinze. Trinta pessoas na fila do banco ou da padaria já é insuportável. Trinta pessoas. Escrevo esse texto no dia vinte e cinco. Ainda assim, faltam cinco para trinta. 

Uma mulher, teve seu corpo violado. Foi drogada para ser tocada ferozmente. Trinta homens, em um quarto. Seu órgão sexual exposto, sangrando. Um vídeo viralizado, que aos poucos vai sendo denunciado e some das redes. Que me sinto arrependido de ter visto. A realidade me doeu, forte. Sem mesmo sofrer um toque. 

Quem não apoia o movimento feminista, diz que as mulheres têm medo dos homens. Como não ter? Como entender um estupro coletivo. Como entender que, no meio de TRINTA homens, nem um deles teve a coragem de tentar impedir aquele ato. Seria a mulher, desacordada e cruelmente machucada, a culpada de tudo isso? Seria o carinha que ela beijou? A saia que ela usou? Uma conversa com o amigo da faculdade após a aula? 

Estupro é crime. Vi um vídeo com trinta criminosos. Mataram o psicológico de uma jovem, que até então parece ser menor de idade. Colocaram nela, uma enorme parede, que vai demorar anos para ser destruída. Mulher vítima do machismo, da crueldade, da falta de respeito... Mulher vítima de trinta homens que reproduzem um comportamento tão repugnante e que se orgulham gravando um vídeo e tirando selfies com seu corpo molestado. 

Se a vontade de estuprar para alguns, é uma doença, tomem cuidado. Ela atinge TRINTA em cada TRINTA brasileiros. Na estatística do caso, 100%. Na estatística geral, é só mais um. Que, logicamente, não é noticiado na mídia com a relevância que deveria. Quando reproduzido nacionalmente pela Grazi Massafera, é tido como uma cena bem interpretada. Quando acontecido na favela carioca com trinta homens e uma mulher, é mais um caso contabilizado que resulta em um estupro a cada 11 minutos.

O machismo mata. Mata aos poucos. Mata milhares. E mata da pior forma. Mata socialmente. Mata arduamente. Por um mundo onde o trinta seja vezes mil. E que o resultado desse número seja as famílias educando seus filhos para que não reproduzam a cultura do estupro. 


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